Penso que antes de pensar em motivar os alunos a lerem os clássicos, deveríamos pensar na motivação desse professor de literatura e na sua prática. O que é ensinar literatura para esse docente? É só falar das escolas literárias e de suas principais características? É falar somente da época na qual as obram foram escritas? É somente destacar a importância dessas obras para a literatura nacional? É dar informações sobre a vida de determinado autor? Só isso?! Se aula de literatura só for isso, de fato, não há quem se motive…

A aula de literatura não pode ser só essa série de fatores já citados.  É certo que estes fazem parte da aula e da construção do conhecimento dos alunos sobre o contexto que cerca a obra literária. No entanto, esses fatores seriam o meio e não o fim das aulas de literatura.

É importante falar das escolas literárias sim, pois os alunos assim terão um panorama sócio-histórico e cultural para que tenham uma leitura um pouco mais detalhada das obras que se produziram nesse período. Também é importante conhecer a época e os autores que escreveram tais obras, mas às vezes se atribui tanta importância a essas informações periféricas que se esquece de que o objeto de estudo da aula de literatura é a obra literária, ou seja, o texto propriamente dito. E quando estamos falando de obra literária (ainda que canônica), estamos falando simplesmente de histórias infinitas que são contadas por homens com uma imaginação igualmente infinita. Histórias que podem fazer com que o leitor chore, ria, se revolte, ame, se delicie ou até não goste do que leia. Mas o mais importante nesse processo de ler é a interação que se dá entre o autor e o leitor no ato da leitura. Ler implica prazer, implica ampliar a imaginação e (re)construir um novo texto. Penso que cabe ao professor de literatura passar essa visão aos seus alunos: de que a literatura canônica é assim concebida pela sua importância dentro da construção da sociedade nacional, mas que suas obras são simplesmente histórias que podem fazê-los sentir diferentes emoções, assim como os livros da atualidade lhes fazem.

Cabe aqui destacar que o professor de literatura não deve ter uma visão preconceituosa referente ao que lêem os alunos. É óbvio que como docente, esse apreciaria muito mais que todos os seus alunos lessem Machado de Assis ou José de Alencar, mas não se pode esperar somente isso de jovens adolescentes que muitas das vezes não sabem nem o porquê e nem para quê devem ler tais autores. Se os alunos lêem “O Código da Vinci”, “Harry Potter” ou “Crepúsculo”, por que criticá-los? Só por que estariam lendo uma literatura não-canônica? E qual é o problema? Em vez de criticá-los, o professor pode usar esses best-sellers como uma ferramenta para que esses mesmos alunos cheguem a ler também os clássicos. Até porque, no país em que vivemos, poucos são os que lêem. E se os nossos alunos estão lendo algo, ainda que não sejam os clássicos, eles já estão “na frente” de muitos outros brasileiros, que ainda não cultivam o hábito da leitura. Então, viva os best-sellers! Mas viva também os clássicos! Viva a boa história! Seja ela canônica ou não…

Como modo de ajudar na motivação dos alunos, poderiam ser usadas outras linguagens que interagem com as obras literárias, como por exemplo, minisséries da Rede Globo (que possui muitas minisséries inspiradas em clássicos de nossa literatura – de Machado de Assis a Jorge Amado), adaptações de obras literárias para a linguagem cinematográfica (afinal, quem não gosta de ver um bom filme?) e uso de literatura em quadrinhos (o jornal Extra lançou recentemente algumas obras literárias da nossa literatura em quadrinhos). Enfim, são só algumas idéias. Mas que acredito que seriam de grande apoio didático para o professor, pois suscitaria o interesse e a curiosidade dos alunos para a obra literária que se pretenda ler. Penso que esses exemplos seriam ideais como atividades de pré-leitura.

Como atividade de pós-leitura, pode-se propor aos alunos trabalhos em grupo de dramatização da obra lida ou então de recontar a história da obra em outro veículo, ou seja, eles teriam que adaptar a história a outro gênero textual como curta-metragem, novela, telejornal, etc. São atividades que seriam de grande riqueza para os alunos (devido à exploração de seu conhecimento genérico) e que ainda os motivaria a seguir lendo outros clássicos. Penso que com esse tipo de abordagem, os alunos, por fim, desmitificariam as aulas de literatura e não as achariam tão chatas (que é o que eles realmente pensam sobre essas aulas…).