Se a aquisição de língua materna constrói o Sujeito que antes dela não existia, a aquisição de uma língua estrangeira proporciona um deslocamento do Sujeito. E o deslocamento se dá pelo fato de que as línguas são assimétricas, forçando o aprendiz de língua estrangeira a reconstruir seus conceitos de mundo. Vygotsky (1989) destaca “que a Linguagem é um processo pessoal ao mesmo tempo em que é um processo social. […] Ela é aprendida no meio, na interação com o ambiente e as pessoas.”

Assim, podemos afirmar que a cultura está expressa na linguagem. E isso implica o processo de aprendizagem de segunda língua, pois o aprendiz de tal língua aprende uma língua na qual estão inscritas marcas culturais, e essa tarefa de aprender pode ser difícil, pois culturas diferentes recortam o mundo de maneiras diferentes e expressam essas diferenças em suas línguas.

Esse é o deslocamento: é não encontrar tradução exata na língua materna, mas compreender o sentido de uma determinada palavra ou expressão na língua estrangeira. Isso é perceber uma nova maneira de recortar o mundo. Parece tarefa simples, mas pode ser bem mais complicado do que se imagina, pois este deslocamento do “eu” sugere muitas vezes a reconstrução da própria identidade do falante da língua estrangeira.

Christine Revuz afirma que “toda tentativa para aprender uma outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está inscrito em nós com as palavras dessa primeira língua. Muito antes de ser objeto de conhecimento, a língua é o material fundador de nosso psiquismo e de nossa vida relacional. […] É justamente por que a língua não é, em princípio, e nunca só um instrumento, que o encontro com uma outra língua é tão problemático, e que ela suscita reações tão vivas, diversificadas e enigmáticas”.

Revuz (1998) aponta que a dificuldade do deslocamento do “eu” na língua estrangeira está relacionada à carga afetiva que está inscrita na língua materna e que não é percebida na língua estrangeira pelo aprendiz. Reforça essa idéia, mostrando-nos que a nominação em língua estrangeira “vai provocar um deslocamento das marcas anteriores. A língua estrangeira vai confrontar o aprendiz com um outro recorte do real, mas sobretudo com um recorte em unidades de significação desprovidas de sua carga afetiva (pág.223).” E vai mais além: “ a língua estrangeira não recorta o real como o faz a língua materna (pág.223).”

Aprender uma língua estrangeira é uma “aventura” que requer disposição à aceitação de que não existe somente um ponto de vista sobre as coisas. Segundo Revuz (1998), este novo recorte que a língua estrangeira exige do aprendiz, faz a arbitrariedade do signo lingüístico tornar-se uma realidade tangível; coisa que dificilmente o aprendiz perceberia em sua língua materna, justamente pelo fato de que a língua materna é aprendida inconscientemente, enquanto que a língua estrangeira é motivada e consciente, embora desprovida de carga afetiva como a primeira língua.

O nosso estranhamento do recorte de mundo por parte da língua estrangeira ao qual queremos aprender representa certa inflexibilidade ou resistência que faz parte, de maneira geral, de todo ser humano. Aprender uma língua estrangeira é uma experiência a qual nem todos estão prontos, porém a autora nos aponta que “esse estranhamento do dito na outra língua pode tanto ser vivido como uma perda (até mesmo como uma perda de identidade) como uma operação salutar de renovação e de relativização da língua materna, ou ainda como a descoberta embriagadora de um espaço de liberdade. […] Aprender uma língua é sempre, um pouco, tornar-se um outro (pág. 224;227).”

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