Diz-se amplamente que a literatura brasileira foi inaugurada e consolidada de fato pelas mãos de Gonçalves Dias e que antes deste autor, a nossa literatura, autenticamente brasileira, ainda não existia. Segundo Afrânio Coutinho, a partir deste autor, “a literatura produzida no Brasil não poderá mais ser considerada como um simples ramo da portuguesa”.

A poética de Gonçalves Dias se insere na Primeira Fase do Romantismo brasileiro, que se deu no período de emancipação política do Brasil. O Brasil conquistou sua independência da Coroa Portuguesa em 1822, e a partir de então, o desejo de se criar uma literatura própria, tropical e que refletisse a realidade do país ficou ainda mais forte.

Os escritores da época se alimentavam do desejo de ao mesmo tempo criar uma literatura independente e diferente da portuguesa e (re)afirmar o orgulho patriótico para criarem as suas obras. Esse sentimento comum à época manifestou-se tanto na prosa (na qual temos como maior representante deste período José de Alencar, com seus romances indianistas “O Guarani” e “Iracema”) quanto na poesia, cujo maior representante, como já dito acima, foi Gonçalves Dias, que escreveu poemas indianistas. Um dos mais conhecidos é “Juca Pirama”.

Antônio Cândido, um dos grandes teóricos da nossa literatura, afirma em seu texto “Gonçalves Dias consolida o Romantismo” que Gonçalves Dias é o verdadeiro criador da literatura nacional. Para tal afirmação, vale-se da ideia de que antes o brasileiro nunca esteve representado na poesia.

De fato, nas poesias de Gonçalves Dias encontram-se algumas temáticas da primeira geração romântica como o culto à natureza, a idealização do índio, a nostalgia da terra natal e um grande sentimento patriótico. Porém, a afirmação de que a literatura nacional, e consequentemente, de que a poesia brasileira fora inaugurada (o teórico afirma que fora criada) por Gonçalves Dias merece algumas ressalvas.

Em primeiro lugar, ao fazer tal afirmação, o teórico despreza a poética de Gregório de Matos, que fora classificada dentro do estilo Barroco, de acordo com a época em que foi produzida e, claro, de acordo com as características que a mesma apresenta. Não há como negar que a poética de Gregório de Matos seja barroca. Não é isso que aqui se discute, pois sua obra apresenta as principais características do movimento intitulado Barroco, que surgira como uma resposta à Reforma Protestante no Concílio de Trento.

Na sua poesia, podem-se encontrar três vertentes que cultivou: a religiosa (na qual o eu – lírico coloca-se diante de Deus como um pecador, pedindo perdão por seus erros), a lírica (na qual há um dualismo entre carne e espírito e a imagem da mulher como personificação do próprio pecado; a poesia obscena se insere nesta vertente) e a satírica (na qual criticava os políticos da Bahia, a corrupção, a cidade de Salvador e os letrados. Por sua forte veia crítica, era conhecido como “Boca do Inferno”).

Entretanto, nem todos os teóricos vão estar de acordo com essa divisão da obra de Gregório. Segundo Ana Lúcia Oliveira, “Gregório foi essencialmente um poeta satírico e burlesco”, ou seja, não se deveria associar a imagem de Gregório a do pecador arrependido, pois essa classificação remeteria a uma análise de sua obra a partir somente de sua vida.

A questão é que se se considera somente a poesia religiosa de Gregório, de fato, não há literatura “brasileira” ali, pois não reflete a nossa sociedade. Pelo contrário, é estilo que vem da Europa, assimilado por um poeta brasileiro e reconstruído aqui, mas ainda seguindo os moldes europeus, em consonância com a linguagem e com as temáticas barrocas em voga na Europa, como o verso exuberantemente ornado, o rebuscamento formal, caracterizado pelo jogo de palavras (Cultismo), o jogo de idéias constituído pelo pensamento lógico (Conceptismo), a luta entre o espírito e a carne (sendo que a espiritualidade é que se torna carnal e não a carne que se torna espiritual), a conciliação de contrários e a intensa sensualidade.

Por outro lado, se se analisa a obra de Gregório, como nos aponta Ana Lúcia Oliveira, sendo este essencialmente satírico, vê-se aí uma poesia que seguramente retrata o local, pois se o poeta criticava em suas poesias personalidades de sua cidade e do seu Estado, é porque estava retratando o local e se o estava fazendo, estava retratando o brasileiro em sua poética.

Logo, o local não começou a ser posto na poesia a partir de Gonçalves Dias, pois isso já era feito muitos anos antes por Gregório. Não estou com essa afirmação querendo dizer que Gregório apresentava características da primeira fase do romantismo. Até porque o contexto histórico no qual as obras desses autores estão inseridas é muito diferente um do outro. Tampouco discordo totalmente de Antônio Cândido.

Ao afirmar que Gonçalves Dias criou verdadeiramente a literatura nacional, por refletir o local na poesia pela primeira vez, não concordo, simplesmente pela questão de que o local, como já fora mostrado antes, já vinha aparecendo na poesia satírica de Gregório.

Porém, concordo com o teórico quando este afirma que antes não havia literatura nacional, pois de fato, ainda que Gregório retratasse o regional e uma realidade “brasileira”, ainda não se era Brasil independente. Ou seja, ainda éramos colônia de Portugal e, consequentemente, toda a literatura produzida na Colônia estaria para sempre atrelada à Metrópole, ainda que a literatura da Colônia refletisse a realidade da mesma.

Deste modo, Gonçalves Dias inaugura o nacionalismo e a literatura brasileira quando o conceito de nação brasileira surge com a Independência, a partir de 1822.

O local retratado na poesia de Gregório não assume uma posição nacionalista de fato, mas se analisado diacronicamente, e sem levar em consideração o contexto sócio-histórico e político, podemos até falar de um “proto-nacionalismo” em sua poesia satírica.