• Estudos Culturais

A primeira teoria estudada no semestre foi a dos Estudos Culturais, que consistia em estudar a cultura. Porém, aqui a cultura adquirirá outro papel e função na sociedade. Até então, só se tinha como “cultura” aquela que estava vinculada às camadas mais altas da sociedade e no caso, quem não pertencesse a tal classe social, teria que ter acesso a certo grau de erudição, ou seja, necessitaria “adquirir cultura” para que pudesse penetrar em tais níveis sociais. Em outras palavras, quem estivesse em outra camada social que não fosse a elite, não teria cultura.

Observe-se que o conceito de cultura nesse momento carrega consigo preconceito e juízo de valor. Só a elite era produtora de “cultura propriamente dita” e esta como produtora era também (por que não?) detentora dessa cultura. E como tal, olhava para as camadas sociais mais baixas como meras camadas consumidoras de tal cultura (isso quando essa cultura elitizada fosse apresentada às classes mais baixas da sociedade).

Além do preconceito, outro ponto supracitado foi a questão do juízo de valor que havia em torno dessa cultura elitizada. A elite, como detentora da “verdadeira cultura”, sentia que seu “produto” era melhor que todos os outros e que quaisquer outras manifestações de outras camadas sociais, não seriam consideradas como cultura, pois teriam apelo popular. Ou ainda, a elite aceitava minimamente que poderia haver outras manifestações de culturas advindo das classes mais baixas e aí, nesse caso, chamaria tais manifestações de “sub-culturas”, uma nomenclatura que explicita o juízo de valor que havia em relação às culturas em geral, nas quais uma era melhor do que a outra.

Foi nesse contexto, ainda na década de 50, que alguns pesquisadores da Universidade de Birmingham, fundam o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos. Tal centro visava estudar as culturas através de outro viés: a cultura não seria mais estudada como um espaço simbólico de dominação e reprodução de idéias dominantes, mas fundamentalmente como um lugar de luta entre diversas culturas, vinculadas a determinados estratos da sociedade. Ou seja, a partir desses estudos, não se olhará mais para a cultura com preconceito e juízo de valor. “A Cultura” não pertencerá mais somente a uma elite. Serão uns estudos mais neutros, nos quais será possível uma convivência com diferentes culturas, advindo de diferentes classes sociais. As classes baixas passam a ser também produtoras de culturas, adquirindo uma posição ativa e não mais de passividade, como eram vistas anteriormente, como meramente receptoras de cultura. E os meios de comunicação irão auxiliar muito essa espécie de “democratização cultural”.

Há muita pertinência em se estudar tal teoria nos dias de hoje, pois ainda se encontra no imaginário popular essa idéia de que cultura está relacionada a uma erudição, a uma instrução ou até mesmo a uma escolarização. Tal conceito deve ser desconstruído de todas as formas, primeiramente dentro de nós, atuais alunos universitários e futuros professores, para que no futuro não perpetuemos tal discurso elitizante e venhamos a desvalorizar todo o bojo cultural que trarão nossos futuros alunos consigo.

  • Fenomenologia, Hermenêutica e Teoria da Recepção

A fenomenologia era a ciência dos fenômenos puros e tinha como objetivo chegar à essência de todas as coisas através da abstração da mesma (uma espécie de transcendência). Havia uma supervalorização da experiência como fonte de conhecimento “autêntico” das coisas do mundo. Tal conceito vem ancorado com as idéias próprias da pós-modernidade, que visa a sujeitos que só responderiam a estímulos e que estariam tão estimulados, mas que careceriam de uma verdadeira experiência. Seria um retorno “às coisas como elas seriam”.

A crítica fenomenológica foi a aplicação à literatura das idéias da ciência fenomenológica e visava a uma leitura totalmente “imanente” do texto, desconsiderando as relações extra-textuais.

O interessante de se estudar essa teoria é que poderíamos ver uma simplificação do próprio texto literário ou até mesmo uma não-teorização do texto literário, pois a atenção toda estaria voltada para o texto e para o que expressou o autor dentro do texto, desconsiderando assim todas as suposições sobre, por exemplo, quais seriam as intenções do autor em querer dizer tal coisa, etc. Às vezes, teoriza-se tanto, que se acaba por querer mudar a essência da obra, o que estaria totalmente contra a ciência fenomenológica.

A hermenêutica era a ciência ou a arte da interpretação. Esta olhava para o texto, mas sua interpretação levava em consideração as relações extra-textuais, valorizando as diferentes leituras que se poderá fazer de uma mesma obra literária em diferentes contextos histórico-sociais.

Vejamos por exemplo uma obra como Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, que completou 400 anos e que continua até hoje atual, com diversas releituras em companhias de teatro (Bibi Ferreira já encenou o livro), na dança (há um balé espanhol muito famoso no mundo todo que transformou o livro num espetáculo performático) e até como enredo de carnaval. É uma obra que ganha novos ares em novas épocas, dada a sua universalidade. Ou seja, o leitor vai resignificando o texto a partir de seu próprio contexto sócio-histórico. Afinal, quem nunca teve vontade de abandonar tudo e sair pelo mundo para realizar um sonho? Por que fascina tanto essa história? Porque Dom Quixote teve a coragem de fazê-lo e o fez…

Também julgo plausível o estudo de tal teoria, pois num contexto escolar poderia servir inclusive como instrumento de aproximação dos jovens à literatura, pois ainda que lêssemos os contos de Machado de Assis ou os romances indianistas de José de Alencar ou até mesmo as poesias barrocas de Gregório de Matos (escritos em contextos muito diferentes dos que vivemos hoje), poderíamos atualizá-los aos dias de hoje, dialogando sempre com as obras produzidas em nossa sociedade e em nosso tempo, aproximando de nossa realidade e assim, tornando a obra literária mais “tangível” aos alunos. Talvez assim não tenham mais trauma de estudar literatura e até passem a gostar…

A manifestação mais recente da hermenêutica na Alemanha é conhecida como a “estética da recepção” ou “teoria da recepção” e visa investigar o papel do leitor na literatura. Primeiramente, nos estudos, era privilegiado o autor, que seria a fonte do texto. Posteriormente, os estudos se voltaram para o próprio texto, que seria o produto do trabalho do autor. E atualmente, busca-se estudar o leitor, que como se pode observar, sempre havia sido o componente menos importante dessa relação tríade (autor à texto à leitor). A existência dessa teoria se justifica no fato de que sem o leitor, a obra literária não existe, ou seja, não se concretiza, não completa o seu “trajeto original”. Ou seja, a obra literária só se materializa na prática da leitura e nessa perspectiva, o leitor seria tão fundamental nesse processo quanto o próprio autor.

Porém, cabe ressaltar aqui que se a importância do leitor é elevada, ou melhor, equiparada ao do próprio autor, as relações hierárquicas tendem a mudar na relação entre autor, texto e leitor, pois se antes o leitor só era um mero receptor, agora depende dele a própria existência das significações contidas no texto do autor. Logo, isso implica uma maior interação, ou até mesmo, uma maior intervenção do leitor no texto, ao ponto de um teórico (Fish) afirmar que “o verdadeiro escritor é o leitor”.

Esse modo de conceber o perfil do leitor como um agente no texto é interessante, pois aplicando isso ao ensino de literatura no contexto escolar, pode servir para aproximar os jovens dessa disciplina, a partir do momento em que eles são tão importantes quanto os próprios autores canônicos. Muitas pessoas se sentem “diminuídas” de certa forma quando não conseguem interagir com autores consagrados de nossa literatura ou então, pensam que esses seriam “intocáveis” e que sua linha de raciocínio quanto à interpretação do que houvera sido lido deveria acompanhar o raciocínio do “autor todo-poderoso”. E às vezes, a impressão que dá é que nunca se chegará a tal raciocínio, pois o autor é o Autor. “Nós somos só meros leitores…” – diriam os alunos. Julgo importantíssima essa valorização do leitor para que este se sinta cada vez mais motivado a continuar lendo os grandes autores da literatura, pois até mesmo eles, os grandes, escreveram para que alguém os lesse…

  • Estruturalismo e Pós-estruturalismo

O estruturalismo literário surgiu na década de 1960 com o intuito de se aplicar à literatura os métodos e interpretações de Saussure, fundador da lingüística estrutural moderna.

O estruturalismo, como já se pode notar através da própria palavra, atem-se às estruturas ou ainda, ao exame das leis gerais que regem o funcionamento dessas estruturas. E sua aplicação à literatura requer um distanciamento da obra literária de questões não-literárias, ou seja, extra-textuais. Em outras palavras, a literatura não poderia deixar-se influenciar por questões que estivessem fora da “estrutura”, que seria a própria obra literária.

A institucionalização da obra literária como uma estrutura por parte dessa teoria implicou na desmistificação da literatura, na qual esta passa a ser encarada como um produto qualquer da linguagem, algo construído e que, portanto, poderia ser classificado e analisado como os objetos de qualquer outra ciência. Ocorre uma perda da áurea que a literatura gozava até então.

Por outro lado, há o pós-estruturalismo, que aponta para um dialogismo existente entre diferentes obras literárias, o que implica na não-existência de um texto literário “autêntico” ou “original”, pois todos os textos literários seriam tecidos a partir de outros textos literários, no sentido de que um texto influenciaria um outro. Toda literatura será intertextual. E a teoria pós-estruturalista aponta para algo mais: tal intertextualidade se dará na mente do leitor e não no autor, pois será o leitor que dialogará com o texto que lhe é apresentado, estabelecendo relações com suas leituras prévias e assim, concretizando mentalmente a polissemia do texto literário. Assim como já fora destacado anteriormente quando tratávamos da hermenêutica, também aqui o leitor exerce um papel fundamental na própria existência da obra literária.

Segundo Roland Barthes, há algo que marcaria fundamentalmente a diferença entre o estruturalismo e o pós-estruturalismo: aquele focalizaria a “obra”, enquanto que este focalizaria o “texto”.

Conclusão

Para finalizar esta análise, concluo que ambas as teorias discutidas ao longo do semestre são válidas desde terminados pontos de vista, pois como toda teoria, sempre há uma parte que se possa aplicar a uma determinada realidade, embora às vezes certas questões abordadas pela mesma teoria sejam inaplicáveis ou no mínimo, questionáveis.

Foram citados ao longo das aulas inúmeros teóricos de cada uma das teorias citadas anteriormente e cada um deles apresentou, de certa forma, uma vertente da mesma teoria, uma visão diferente e todas são visões interessantíssimas.

O que é mais importante é que não se tente estabelecer uma verdade única e para todo o sempre, pois quando se alcançar à Verdade, todo o conhecimento estará perdido, pois a aprendizagem e o crescimento intelectual advêm da discussão, da refutação e da constante reflexão sobre as questões que permeiam a literatura. Inclusive porque, segundo Roberto Acízelo Quelha de Souza, “sem uma teoria, a literatura é o óbvio”.