junho 2009




Garçom,

Traz mais uma!

Bem gelada hein!

Que hoje eu quero comemorar!



Bebo.

Sorrio.

Converso com os amigos.

Rio com os amigos.

Rio dos amigos.

Os amigos riem de mim.



Bebo.

Sorrio mais um pouco.

Jogamos conversa fora.

Palavras afoitas.

Muitas inúteis.

O simples ato e desejo de falar, puro e simplesmente.



Paro de falar por um instante.

Mais uma, garçom!

A vida é bela e muito curta e eu quero comemorar!

Hoje, amanhã e depois.

Na semana próxima e na seguinte.

No mês que vem e no próximo ano.

Nos próximos anos…

Quero comemorar sempre!

Enquanto houver ar nos meus pulmões, celebrarei a vida!



Não a minha.

Mas a dos meus entes amados.

Da minha esposa, dos meus filhos…

Tenho dois: Miguel e Mariana.

Lindos.

Levados, mas lindos.

Muito inteligentes!

Nunca vi crianças tão espertas!

Devem ter puxado ao pai… Só pode!



Já estou aqui há tempos…

O bar tá fechando.

Mas eu não quero ir embora.

Tão tirando as outras mesas e levando as cadeiras.

Não tem problema, seu garçom.

Eu bebo em pé, sentado ou do jeito que o senhor quiser.

Só me deixe comemorar!



Mas o garçom falou que sentia muito e que tinha que fechar.

Tudo bem.

Vai com Deus.

Acabou mais um dia de trabalho e você só quer descansar.



Eu também vou com Deus.

Pra outro bar.

Pois é preciso comemorar!



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Era sábado. Um sábado lindo. Um sol incandescente pairava sobre nossas cabeças. O sol! Dia quente no Rio é sinônimo de dia feliz. E não poderia ser diferente, pois não era um sábado como outro qualquer. Era sábado de carnaval.

Ela estava linda na primeira vez que eu a vi. Vestida com roupas leves, típico de folião. Ela era a mais linda foliã. Estávamos no Bola Preta, lá na Cinelândia. Vimos-nos e foi paixão à primeira vista. Conversamos um pouco. O pouco virou muito e em algumas horas depois de curtir o bloco, já estávamos nos amando. Às vezes, fico pensando que se não fosse o carnaval, talvez ela nem tivesse me dado bola. Mas o carnaval tem dessas coisas inexplicáveis. Freud não explica isso. Duvido!

E juntos permanecemos durante a folia de Momo. Domingo, desfilamos pelo Salgueiro e nos amamos outra vez. Acho que foi o vermelho da escola que nos incendiou. Segunda, desfilamos pela Portela. O azul-e-branco de Madureira nos emocionou de tal forma que nos amamos novamente. Sem falar nos blocos. Suvaco, Que Merda é essa?, Cacique de Ramos, Bafo da Onça… Curtimos todos esses mais conhecidos e ouros blocos menores. Na terça, a clássica Banda de Ipanema. À noite, mais samba na Lapa, sem esquecer do Terreirão. O importante era que estávamos juntos e pulando carnaval. Aliás, nunca gostei dessa expressão “pulando carnaval”. Carnaval não se pula, se samba. Então, retificando: sambamos carnaval como nunca. Eu era o Pierrô e ela, a minha Colombina. Foram os dias mais felizes da minha vida.

Na quarta-feira de cinzas, o dia amanheceu nublado. Cinza. Tudo a ver. A felicidade que tomara conta da cidade se transformara em doce recordação. No carnaval, penso que o mundo tem jeito. As pessoas se divertem, brincam, são felizes. Esquecem os problemas. Se o carnaval não acabasse nunca, talvez a vida fosse diferente… Sei lá. Às vezes, dou para divagar. Não ligue para isso.
Liguei para ela. Não me atendeu. Tentei outras vezes e nada. Naquele dia nublado, fiquei muito triste. Chorei. De felicidade por ter encontrado a mulher da minha vida. E de tristeza por tê-la perdido dias depois. Chorei por não me conformar que não a veria mais. Por não me conformar que o carnaval fora um sonho. Um sonho que acabara. Estava de volta à realidade. Chorei e chorei. Gritos de felicidade se espalharam pela cidade. Saí de casa para ver. E me deram a notícia:

– Salgueiro e Portela ganharam o carnaval!

Meu choro se intensificou. Felicidade e tristeza no mesmo choro. É o choro mais estranho que existe. Meu coração se acalmou. As campeãs do carnaval foram as escolas que nós havíamos desfilado! Confesso que tive esperanças de encontrá-la novamente.

Chegou o sábado das campeãs. Vejo esse dia como uma festa falsa, uma reprodução do que houvera uma semana antes. Não há a mesma graça. Mas lá estava eu, pelo menos para tentar esquecê-la, mas na verdade foi lá que eu mais me lembrei dela.

Desfilei. Duas vezes. Portela e Salgueiro. No fim dos desfiles, chorei novamente. Foram os desfiles mais bonitos da minha vida. Jamais vou esquecer aqueles momentos. Juro que a procurei, mas não a encontrei.


Três meses depois, estava eu na fila do banco, quando alguém me toca o ombro direito. Viro. E dou de cara com ela. Sim, o meu amor de carnaval! Ela estava ali, na minha frente. Mas não me reconheceu.

– Moço, que horas são?

Madonna anunciou que viria ao Brasil depois de 15 anos ignorando a banda de cá da América. Porque na última turnê do ótimo cd “Confessions on a dance floor”, cogitou-se até uma apresentação gratuita (até parece!) na praia de Copacabana, como fora o show dos Rollings Stones. Mas ouvi dizer que Madonna teria cobrado muito e que por isso, não iria trazer ao Brasil aquela que foi a sua melhor turnê já produzida. Tudo bem. A vimos pelo dvd…Mas eis que surge um novo cd, uma nova Madonna, uma nova turnê. Depois do perfeito cd (não canso de dizer isso) todo feito em batida eletrônica, surge uma Madonna oportunista (no melhor uso da palavra), fazendo uso do hip-hop. Antes que me acusem de algo, explicarei melhor o uso da palavra “oportunista”.

Digo que Madonna foi oportunista ao lançar esse último álbum (Hard Candy), pois entendo que oportunista é aquele que sabe aproveitar uma boa oportunidade e tirar proveito dela. Ela parou e observou que os rappers nunca estiveram tão na moda. Vide Jay-Z , Já Rule, Pharrel, Will I am, 50 Cent, Justin, Timbaland, Kayne West e tantos outros. Esses caras lançam uma música atrás da outra e são febre em quase todo o mundo. Madonna, muito esperta, não queria ficar para trás. Sabia que num novo álbum, se não os usasse, teria que disputar com eles o espaço musical (guardadas as devidas proporções). Então, decidiu que iria trabalhar com eles. Oportunista mais uma vez, chamo eu. E acertou em cheio. Mas não é ineditismo!

Madonna deve ter aprendido com Mariah Carey, que depois de amargar péssimas vendas (fazendo cds só para seus fãs) cedeu ao encanto dos rappers (e à pressão da gravadora) e vendeu que nem água um cd que continha vários hits dançantes, como “It’s like that”, “Shake it off”, “Get your number”, entre outros. Mariah tinha deixado de ser cantora somente para fãs e virou cantora de massa a ponto de ter uma música sua executada no baile de charme debaixo do viaduto de Madureira! Quem diria que os “negões” (sem ofensas) um dia ouviriam a voz fininha de Mariah?! E por que ouviram sem reclamar? Porque ela entrou no clima (e no ritmo certo). Madonna estava atenta a tudo isso…Por isso, neste novo cd, ela chega com uma nova batida, mas o cd não chega nem aos pés do anterior. Mas é interessante ver essa mistura. A rainha do pop lança um cd com uma levada hip-hop, mas que no fim acaba sendo um “hip-hop-pop” e nada além disso.

Mas falando da turnê do cd novo, esta chega ao Brasil, o último país pelo qual a turnê passará. Dois shows no Rio e três em Sampa. Tá de bom tamanho. Na verdade, ela até agendou shows demais. Cogitava-se uma única apresentação. Mas a “Time for fun” (empresa que a trouxe) pagou uma fortuna por essa brincadeira toda…

Eu relutei muito. Não queria ir ao show de jeito nenhum. Pagar um dinheirão para ver um artista… Não. Era demais para mim. Não podia aceitar isso! Mas quando chegou no dia do primeiro show, me bateu um sentimento ruim no peito. E odeio esse sentimento. Explico, mas vê se você me entende ou se já aconteceu com você algo parecido… Sabe quando tem uma festinha de um vizinho seu e todos os seus amigos são convidados, menos você? Por mais que você anuncie pelos quatro cantos que você não faz questão de ir à festa alguma, não te dá uma sensação chata, ruim, sensação de excluído?! Em mim, dá! Que raiva que eu fico quando isso acontece! Pois então, aconteceu a mesma coisa comigo em relação ao show da Rainha do Pop. Eu não fazia questão, mas todo mundo estava indo (todo mundo mesmo, até meu professor de Literatura Portuguesa!). Não podia aceitar essa exclusão. Comprei o ingresso para o segundo dia, faltando vinte minutos para o show começar. Com um cambista, é claro. Não me julgue! Continuando… Por um erro do dito cujo, meu ingresso saiu por 35 reais (sim, isso mesmo! Nem eu acreditei!).

Entrei no Maraca. O palco era gigante. O show começou uma hora e quarenta depois. Curti o show como nunca e descobri que eu sabia cantar a maioria das músicas. O show terminou. Foram as duas horas mais rápidas de toda a minha vida. O show fora perfeito. O melhor show da minha vida. Tá, na verdade, nunca tinha ido a outro show, mas Madonna é Madonna e é para sempre…

Sai do Maraca satisfeito com o que eu tinha visto. Ela é danada mesmo. Faz jus ao nome da turnê. Madonna é doce e pegajosa. Gruda no ouvido e não sai mais. Você diz que não gosta, mas quando vê tá cantando uma de suas músicas-chiclete. É horrível ter que admitir isso, mas ela não ostenta o título de “Rainha” à toa. Ela é soberana no palco. Uma senhora cantora, no auge dos seus cinqüenta anos…


“Seu Ladir” diria que Madonna é “mara”. Eu prefiro pegar carona numa charge do Aroeira, e afirmar que mais pop que a Madonna no Brasil, atualmente, só o Lula mesmo…

A aquisição de uma segunda língua é um processo que difere da aquisição da língua materna, pois a língua materna é adquirida pelas crianças inconscientemente. A criança precisa constituir-se como sujeito e este processo só é possível através da linguagem. Não há sujeito sem linguagem, pois esta materializa o pensamento. Essa inconsciência da aquisição da primeira língua por parte da criança se dá pelo fato de não se poder registrar o exato momento no qual a criança passa a atribuir significados ao mundo que a rodeia, ou seja, o primeiro momento em que significantes se transformam em palavras dotadas de significados na mente da criança estará perdido para sempre. Nesta fase, se dá a “inconsciência” da aquisição da língua, pois a criança não percebe que está adquirindo àquela que será sua língua para sempre.




No âmbito da aquisição de língua estrangeira, a aquisição ocorre de maneira consciente, visto que uma pessoa que deseja experimentar uma língua estrangeira, já possui a sua língua materna bem estruturada e internalizada. Também, pode-se justificar tal consciência da aprendizagem de uma segunda língua, devido ao fato de que as pessoas se motivam, se preparam e desejam alcançar proficiência em uma segunda língua; no que fica clara a diferença em relação à aquisição da primeira língua, no qual a criança não possui “motivação” para aprender tal língua. Na verdade, a motivação da criança é externa, ou seja, o meio social no qual ela está inserida é que exigirá dela a linguagem.
Voltando para a questão da aquisição de segunda língua, é importante destacar a relação entre pensamento e palavra envolvida neste processo. Para isso, desejamos comparar com a relação entre pensamento e palavra na aquisição da primeira língua; para traçarmos as semelhanças e as diferenças entre os processos. Vejamos o que nos diz Vygotsky:
“Quando passa a dominar a fala exterior, a criança começa por uma palavra, passando em seguida a relacionar duas ou três palavras entre si; um pouco mais tarde, progride das frases simples para as mais complexas, e finalmente chega à fala coerente, constituída por uma série dessas frases; em outras palavras, vai da parte para o todo. Por outro lado, quanto ao significado, a primeira palavra da criança é uma frase completa. Semanticamente, a criança parte do todo, de um complexo significativo, e só mais tarde começa a dominar as unidades semânticas separadas, os significados das palavras, e a dividir o seu pensamento, anteriormente indiferenciado, nessas unidades. Os aspectos semântico e externo da fala seguem direções opostas em seu desenvolvimento – um vai do particular para o geral, da palavra para a frase, e o outro vai do geral para o particular, da frase para a palavra (Vygotsky, 108,109).”

Podemos observar que na aprendizagem de língua estrangeira, no âmbito das palavras, o processo é idêntico à aquisição da língua materna. Um aprendiz iniciante de segunda língua, que é antes de tudo, aprendiz consciente do processo de aquisição de tal língua e consciente também de que já possui a sua própria língua; para construir macro-sentidos e falar a língua que almeja, começa (como as crianças na primeira língua) “por uma palavra, depois relaciona outras palavras (poucas) até que começa a construir frases simples. Um pouco mais tarde, progride das frases simples para as mais complexas, e finalmente chega à fala corrente (Vygotsky, 109).”
A diferença principal neste plano inicial entre o aprendiz de língua estrangeira e a criança que adquire língua materna é que quando o aprendiz, neste primeiro contato com a língua estrangeira, começa a construir sentidos nesta língua somente por palavras até chegar às estruturas mais complexas, irá servir-se da língua materna; ou seja, o aprendiz vai intercalar palavras da segunda língua com palavras da primeira, pois ele está recodificando o mundo ao qual já conhecia em sua língua original. A língua materna é muito importante neste primeiro momento, pois ela servirá de base para uma futura “emancipação” e neste momento posterior, o aprendiz já será capaz de construir macroestruturas na língua estrangeira.
Porém, a diferença está na organização do pensamento na aquisição de segunda língua. Como vimos, na língua materna, a criança parte de “um complexo significativo, e só mais tarde começa a dominar as unidades semânticas separadas, […] vai do geral para o particular (Vygotsky, 109).” Na língua estrangeira, o pensamento caminha junto com a palavra quanto a sua estruturação na mente do aprendiz. E essa diferença pode-se atribuir ao fato de ser um aprendizado consciente e calcado (nos estágios iniciais) na língua materna, no qual o aprendiz já possui o domínio das unidades semânticas separadas.
Como exemplo, imaginemos que há uma criança frente a um aquário no qual há vários peixes nadando. Um adulto aponta para o aquário e diz: “peixe”. A criança, para fazer sentido com essa informação, vai partir do micro para o macro, ou seja, parte da palavra peixe, mas seu pensamento vai partir do macro para o micro, e por isso, neste primeiro momento, ela vai pensar que o significante peixe engloba o significado de “peixe + água + pedrinhas coloridas no fundo + vidro (aquário)”. Ela vai imaginar que peixe será tudo aquilo que estará à sua frente. Nesta etapa de seu desenvolvimento, a criança ainda não é capaz de segmentar o seu pensamento em unidades menores.
Agora, imaginemos que temos um aprendiz de língua estrangeira frente a um aquário e um professor desta língua (pensemos no inglês como exemplo de segunda língua) aponta para o aquário e diz: “fish”. O aprendiz poderá até se confundir e pensar que o significante “fish” se refere ao significado “aquário”, porém ele dificilmente aglutinaria unidades semânticas. Ou ele pensaria que é o peixe ou que é o aquário, mas não pensaria que “fish” significasse “peixe + aquário com pedrinhas no fundo + água”.
Essa impossibilidade de aglutinar unidades semânticas é devido ao fato que a língua materna já está internalizada no aprendiz e serve como suporte para a percepção e compreensão da língua estrangeira. Ou seja, com este exemplo, podemos observar que na aquisição de segunda língua, o pensamento parte do micro para o macro, juntamente com a palavra; pois o aprendiz desta outra língua já possui a língua materna como referência. Para que fique claro, nos referimos a um aprendiz que não seja criança, estamos usando como exemplo um aprendiz que já tenha consciência da aquisição da língua estrangeira e que já tenha superado este momento inicial da aquisição da primeira língua (Vygotsky afirma que cerca dos 2 anos de idade, as curvas de evolução do pensamento e da linguagem encontram-se e passam a exercer mútua dependência, ou seja, interdependência).
Embora estejamos comparando um aprendiz de segunda língua falante fluente de sua língua materna com uma criança, acreditamos que tal comparação seja plausível, pois “na aprendizagem de um língua estrangeira, existe todo um tempo de nominação. Mostra-se um objeto ou sua imagem e ele é nomeado. Esse momento evoca, certamente, aquele no qual a criança pequena experimenta seu novo poder nomeando aquilo que a rodeia, sob o olhar aprovador do adulto (Christine Revuz, 222).”


Apesar do nosso exemplo, é totalmente possível haver uma aquisição inconsciente de uma “segunda língua”, porém esse processo se dará em crianças expostas ao mesmo tempo a duas línguas. E no processo de aprendizagem dessas duas línguas, ocorrerão as mesmas etapas de desenvolvimento da linguagem já citadas por Vygotsky. A essa aquisição simultânea de duas línguas chamamos bilingüismo.

O carteiro é aguardado ansiosamente.

E é saudado solenemente

Quando traz algo que esperamos muito.

Ele pode trazer consigo sonhos,

Esperanças,

Cobranças,

Propagandas,

Um telegrama,

Um cartão postal de um lugar distante,

Uma mensagem desejada,

E até mesmo uma carta da pessoa amada.

É perseguido,

Mas isso não o intimida.

Acostuma-se.

Acha até graça.

Tem uma missão e a persegue.

Vai até o fim do mundo

Para cumprir o que lhe foi designado.

O carteiro é um peregrino.

Salve o mensageiro!


Essa semana aconteceu um fato curioso. Entrei num ônibus na Barra da Tijuca e o cobrador pensou que eu fosse assaltar o ônibus. Não me deixou passar na roleta. Na hora eu não entendi direito o porquê, até que percebi que ele estava muito nervoso com a minha presença. Essa atitude dele me fez pensar. Eu deveria ter ficado com muita raiva, mas na hora tamanha foi a minha perplexidade que eu não falei nada. Minha consciência estava limpa. Eu sei que eu não ia fazer nada…

Mas por que ele achou que eu poderia assaltar o ônibus? Pela minha roupa?! Não. Ele não teria ido com a minha cara? Talvez. Mas acho que foi mesmo pela minha cor. Mas tudo bem, eu o entendo. Não sou hipócrita. Quem não fica mais atento quando entra um negro em um ônibus? Se usar boné então… Ficamos ligados! E se estiver de chinelo?! O ônibus nem pára, na maioria das vezes.

Eu poderia estar revoltado pela atitude preconceituosa do cobrador, mas não estou, pois eu poderia ser um dos que estavam naquele ônibus e inclusive, poderia ter tido a mesma reação. Mas isso não justifica o ato em si. É somente um pequeno retrato do preconceito racial que existe neste país e que muitos insistem em negar. Não há justificativa para o preconceito, mas aprendi com essa experiência. Paga-se um preço muito caro por ser negro num país onde a maioria é de negros. Contraditório? Sim. Há país mais contraditório que esse?!

Enquanto nos preocupamos com os negrinhos que podem nos roubar, branquinhos engomadinhos nos roubam todo o tempo. Um branco de terno-e-gravata será sempre um branco de terno-e-gravata, não importando o que ele faça. Para eles, não há prisão. Sempre há um habeas corpus saindo do forno, a todo o momento. E o pobre negro apodrece na prisão, às vezes por roubar para comprar um pão…

Cada um pode suspeitar de quem quiser.

Mas eis a pergunta que não quer calar:

em quê fundamenta-se o nosso medo?




Podemos nos surpreender com a resposta.


Acabaram os Jogos Olímpicos de Pequim. E mais uma vez vemos uma participação brasileira muito discreta. Esperávamos mais, ainda mais depois de termos sediado os Jogos Pan-americanos. Mas, Olimpíadas é outro assunto. De 4 em 4 anos vemos atletas ganharem medalhas, quebrarem recordes e o Brasil, com raras exceções, sendo apenas figurante.

Talvez seja o momento do Governo Federal acordar e começar a investir no esporte. É possível transformar o Brasil numa potencia olímpica e ser não tão somente o país do futebol, mas também o país dos outros esportes.

Poderiam ser criados pólos esportivos nas diversas regiões brasileiras, visando o desenvolvimento e o surgimento de atletas capazes de brigarem por medalhas. Se a Jamaica, que é menor do que o Estado do Rio de Janeiro, ganha mais medalhas do que o Brasil, um país maior do que a Europa, é porque algo está errado com a nossa política desportiva (ou que a dos jamaicanos é muito boa). Alias, a política desportiva no Brasil é quase inexistente…

É hora de acordar! Tem muita gente boa querendo brilhar no alto do pódio esperando somente uma oportunidade.

Olimpíadas no Brasil seria ótimo e eu apoio essa iniciativa. Mas, pensemos bem: não vamos também preparar atletas para quando esse dia chegar? Ou vamos gastar bilhões de reais sediando um evento para que os outros países venham vencer barreiras, quebrar recordes e serem campeões em terras brasileiras?! Se é somente pra ver de perto a vitória alheia, sai bem mais em conta ver pela televisão os Jogos Olímpicos em qualquer outro lugar do mundo…

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